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Carta de amor para Esmirna – parte II

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Como a fidelidade do povo cristão serve como testemunho de fé para os dias de hoje. Na carta, Jesus demonstra conhecer a identidade da igreja de Esmirna.

Este artigo é o segundo de uma série sobre o conteúdo da carta à igreja de Esmirna. Nele está a avaliação que Jesus fez a respeito dela e como se desenrolam os fatos proféticos na história terrestre. Para ler o primeiro artigo, onde foi tratado o contexto histórico e a apresentação cristológica de Jesus para Esmirna.

O segundo ponto revelado pelo Senhor Jesus é a avaliação que faz da igreja de Esmirna: “conheço a tribulação pela qual você está passando, a sua pobreza, embora você seja rico, e a blasfêmia dos que se declaram judeus e não são, sendo isto sim, sinagoga de Satanás” (Apocalipse 2:9). Esta afirmação está em direto contraste com a avaliação da igreja de Laodiceia, que dizia ser rica, estar bem e não precisar de nada. Na aferição de Cristo, porém, era pobre e miserável. Possivelmente, Esmirna desfrutava de um próspero amadurecimento espiritual, porque a carta não contém nenhuma palavra de reprovação, mas sim de encorajamento.

Ao que tudo indica, os cristãos de Esmirna já estavam sofrendo perseguições no período de Domiciano, e a “tribulação e pobreza parecem estar relacionadas. Podemos supor que a pobreza dos esmirneanos não advinha somente da sua situação econômica normal, mas do confisco de propriedades, de bandos hostis que saqueavam e da dificuldade de ganhar a vida em um ambiente hostil”.[i] Em Hebreus 10:34 está escrito: “porque vocês […] aceitaram com alegria a desapropriação dos seus bens, porque sabiam que tinham um patrimônio superior e durável.” Esse verso é uma indicação clara de como os crentes sofreram perseguições, inclusive perdendo o direito a terras, casas e bens para suster a bandeira do evangelho de Jesus Cristo.

É possível extrairmos da carta da igreja de Esmirna uma aplicação profética que se desdobra no percurso da história, mesmo sem firmar as datas com precisão, que se estima ser algo em torno do ano 100 ao ano 313 d.C. Esse período foi marcado por inúmeras crises na esfera econômica, política, social e sanitária.

Na segunda guerra de Barkokeba (“filho da estrela”, em tradução livre), segundo Dio Cassius (150 d.C.), foram mortos 580 mil judeus, além de um sem-número deles pela fome e doença. Nesse tempo, os cristãos já haviam rompido com o judaísmo porque eram vítimas da opressão judaica. Já no segundo século, para distanciar as práticas cristãs do judaísmo, fora introduzido em algumas comunidades cristãs do império romano (em sua maioria gentia) o jejum sabático, que começava na sexta-feira e se estendia para o dia de sábado, que era o dia mais severo de fome.[ii]

Plínio, governador romano, em 111 d.C., diz que os templos pagãos estavam abandonados e que não se encontravam compradores de carne para sacrificar aos ídolos. Segundo ele, o cristianismo havia penetrado as cidades, povoados e campos.[iii] Essas palavras do governador indicam que os cristãos primitivos haviam compreendido a ordem de Jesus de ir e fazer discípulos (Mateus 28:18-20).

O Estado requeria aos cristãos a invocação dos seus deuses, adoração ao imperador e que amaldiçoassem a Cristo. A política estabelecida pelo imperador Trajano, e que se seguiria contra os cristãos durante todo o segundo século, era: se alguém os acusasse e o acusado não negasse a fé cristã, deveria ser executado. Mas, se não houvesse acusação, o Estado não deveria empregar recursos para persegui-los. Mas, tristemente, a história relata que cristãos foram perseguidos e executados. Inácio de Antioquia disse: “estou começando a ser discípulo […] fogo e a cruz, multidões de feras, ossos quebrados […] tudo eu hei de aceitar, contanto que eu alcance a Jesus Cristo. […] E com Ele ressuscitarei em liberdade”.[iv] Policarpo, bispo em Esmirna (69-155 d.C.) e discípulo de João, o apóstolo, disse antes de ser queimado vivo diante dos romanos: “Eu sirvo a Jesus há 86 anos e Ele não me fez nenhum mal. Como eu blasfemaria ao meu Rei, que me salvou?”[v]

Em 161 d.C., Marco Aurélio era imperador do Estado romano. Durante seu reinado houve várias invasões, inundações, epidemias e outros diversos desastres. O povo e os líderes políticos imaginavam que tais catástrofes se davam porque os cristãos estavam atraindo tais males e a ira dos deuses estava sobre eles. Os cristãos eram acusados de serem antissociais, praticarem uniões incestuosas, comer carne humana e de adorar um asno crucificado.[vi]

A sabedoria de Deus

Os romanos criam que a verdadeira sabedoria se originou com os gregos por causa da filosofia e que dos cristãos não poderia vir nada de bom, afinal, em sua maioria, os crentes que defendiam a bandeira do Príncipe Emanuel eram da classe pobre. Neste período surgiram os apologistas em defesa da fé cristã, que defendiam que a verdadeira filosofia provinha Daquele que era o Logos de Deus.

Gregos e romanos criam na imortalidade da alma, porém, o centro da esperança cristã não era esse, mas a ressurreição do corpo pelo poder de Cristo Jesus e por Sua segunda vinda. O segundo século foi marcado pela heresia provinda do gnosticismo. Isto é, a crença num conhecimento secreto dado por Jesus em que a matéria era má e o espírito bom. Para essa filosofia, Cristo não possuíra um corpo físico como nós, mas apenas a aparência de um corpo.

Uma outra heresia que abalaria o cristianismo primitivo fora inserida por Marcião, um herege reconhecido pela igreja no segundo século (85-160 d.C.). Ele rejeitava toda e qualquer origem do cristianismo no judaísmo, por isso criou um cânon que excluía o Antigo Testamento e boa parte dos livros do Novo Testamento que possuem uma forte correspondência com o Velho Testamento. Apesar de o jejum sabático ter sido introduzido em Roma pelos cristãos antes de Marcião, ele ordenou a seus seguidores que “jejuassem no sábado, justificando deste modo: ‘Porque é o repouso de Deus aos judeus. Nós jejuamos nesse dia para não realizarmos nele o que foi ordenado pelo Deus dos judeus.’”[vii]

Continua…


João Renato Alves da Silva é pastor distrital em Cuiabá, Mato Grosso. Formado em Teologia, é pós-graduado em Interpretação e Ensino das Escrituras pelo Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia da Bahia.

Referências:

[i] LADD, George Eldon. Apocalipse: introdução e comentário. Tradução de Hans Udo. São Paulo: Vida Nova, 2020, p. 34.

[ii] BACCHIOCCHI, Samuele. Do sábado para o domingo: Uma Investigação do Surgimento da Observância do Domingo no Cristianismo Primitivo. The Pontifical Gregorian University Press, Roma, 1977, p. 108, 109.

[iii] GONZÁLEZ, Justo L. História ilustrada do cristianismo: a era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. Tradução de Hans Udo. 2ª edição, São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 45.

[iv] GONZÁLEZ, Justo L. História ilustrada do cristianismo: a era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. Tradução de Hans Udo. 2ª edição, São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 45.

[v] GONZÁLEZ, Justo L. História ilustrada do cristianismo: a era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. Tradução de Hans Udo. 2ª edição, São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 51.

[vi] GONZÁLEZ, Justo L. História ilustrada do cristianismo: a era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. Tradução de Hans Udo. 2ª edição, São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 55, 56.

[vii] BACCHIOCCHI, Samuele. Do sábado para o domingo: Uma Investigação do Surgimento da Observância do Domingo no Cristianismo Primitivo. The Pontifical Gregorian University Press, Roma, 1977, p. 106.

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