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Apocalipse e a mensagem do remanescente

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Para compreender as profecias, é necessário olhar de forma mais ampla para a Bíblia. Diversos textos do Apocalipse fazem referência e estão interligados a outros livros bíblicos.

Apocalipse é um livro missionário.[i] Do início ao fim, ele envolve o leitor com uma linguagem que destaca a obra de Deus pela salvação da humanidade e a participação crucial da igreja no plano da redenção. Ellen White, escritora norte-americana e considerada uma profetiza pelos adventistas do sétimo dia, afirma que “as profecias de Daniel e Apocalipse devem ser cuidadosamente estudadas e, em ligação com elas, as palavras: ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’”  (Evangelismo, p. 196). Em O Desejado de Todas as Nações, ela usa as palavras de João 1:29 para sintetizar a pregação evangélica ao dizer que Jesus “olhou, por um momento, futuro adiante, e ouviu as vozes que proclamavam em toda parte da Terra: ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado mundo’” (O Desejado de Todas as Nações, p. 438).

Assim como o livro de Atos, Apocalipse também começa onde os Evangelhos terminam. Mateus, Marcos, e Lucas concluem suas respectivas obras com uma comissão transmitida à igreja pelo Senhor ressurreto por ocasião de Seu retorno ao céu. Atos parte daí para falar sobre a missão da igreja cristã primitiva (Atos 1:8). Por sua vez, embora Apocalipse inicie com uma comissão para o Israel espiritual (Apocalipse 1:5-6; cf. Êxodo 19:6), o foco do livro se concentra na comissão da igreja remanescente (Apocalipse 10:8-11; 14:6-12). Nesse sentido, os capítulos 10 e 14 se complementam, pois enquanto o primeiro fornece uma síntese da comissão da igreja remanescente, o segundo enfatiza a mensagem a ela confiada.

Em Apocalipse 14:6, João afirma: “Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo”. O que vem depois, o chamado para temer, glorificar e adorar a Deus, bem como a própria advertência contra a idolatria e falsa adoração denunciadas na segunda e terceira mensagens angélicas são parte integrante da pregação do povo remanescente (Apocalipse 14:7-12). Em síntese, o evangelho proclamado na fase final da história cristã envolve sete temas principais.

1. O sacrifício expiatório de Cristo.  A frase “evangelho eterno” em Apocalipse 14:6 deve ser lida em conexão com Apocalipse 13:8, no qual João fala a respeito do “Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”. Referências ao sacrifício expiatório de Cristo aparecem com certa frequência ao longo da primeira metade do livro (Apocalipse 1:5; 5:9; 7:14; 12:11; 13:8). O evangelho anunciado no final da história não é diferente daquele proclamado pelos apóstolos.

2. As profecias de Daniel. O anjo forte de Apocalipse 10 faz o solene juramento de que não haveria mais tempo; ou, para dizer de outro modo, ele informa a João que “o tempo terminou” (Apocalipse 10:6, A Boa Nova em Português Corrente). O anjo está se referindo a tempo profético. Mais especificamente, ele tem em mente o fim das profecias de tempo de Daniel. Portanto, para entender não apenas o capítulo 10 de Apocalipse, mas também o que vem depois, é indispensável atentar para as profecias de Daniel! Isto indica que as profecias de Daniel são parte integrante da mensagem a ser proclamada pelo remanescente no tempo do fim.

3. As profecias de Apocalipse. Em Apocalipse 10:11, João recebe uma comissão para profetizar a “muitos povos, nações, línguas e reis”. Existe um consenso entre intérpretes de Apocalipse de que o conteúdo dessa comissão é dado na segunda metade do livro. Porém, não é possível compreender adequadamente a seção escatológica de Apocalipse (capítulos 12-22) sem relacioná-la com a parte histórica (capítulos 1-11). Com segurança, podemos afirmar que as profecias de Apocalipse fazem parte da mensagem proclamada pelo povo remanescente.

4. Restauração do santuário celestial. Enquanto em Apocalipse 10:11 João recebe uma ordem para profetizar a “muitos povos, nações, línguas e reis”, em Apocalipse 11:1-2 ele recebe uma ordem para medir o santuário. As duas ordens estão intimamente ligadas. Como originalmente a Bíblia não tinha capítulos e versículos, é melhor interpretar Apocalipse 11:1-2 como a continuação de Apocalipse 10:8-11.  A medição do santuário está associada à restauração do santuário e à concepção de juízo. Isto pode ser sustentado de diversas formas. Primeiro, a partir de Ezequiel 40-48, é possível concluir que, na cultura judaica, um edifício era medido com o objetivo de restaurá-lo. Segundo, a linguagem de Apocalipse 11:1-2 faz alusão a Levítico 16,[ii] no qual encontramos uma descrição do dia da expiação. Terceiro, Apocalipse 11:1-2 também faz alusão a Daniel 8:11-14[iii] e sua profecia da restauração do santuário. Mais precisamente, Apocalipse 11:1-2 é uma interpretação de Daniel 8:11-14.[iv] A restauração do santuário em Daniel 8 equivale ao juízo de Daniel 7, de modo que os dois capítulos se referem ao mesmo evento a partir de diferentes ângulos. A combinação de passagens bíblicas como Daniel 7-8, Apocalipse 7:1-8; 11:1-2, 19; 14:6-7 permitem concluir que selamento, medição do santuário, restauração do santuário e juízo são termos diferentes para se referirem à obra que Cristo realiza no lugar santíssimo do santuário celestial desde 1844. Essa mensagem é proclamada na Terra pelo povo remanescente.

5. A validade da lei para cristãos na nova aliança. O texto de Apocalipse 12:17 caracteriza o remanescente como “os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus”. Esse texto é quase sinônimo de Apocalipse 14:12, o qual menciona “os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus”. Em ambas as passagens, a palavra grega traduzida como “mandamentos” é entolai). No Novo Testamento, essa expressão pode se referir aos Dez Mandamentos ou adquirir um significado mais abrangente, incluindo as instruções divinas de maneira geral. Como a arca da aliança é mencionada em Apocalipse 11:19, é razoável concluir que o termo entolai em Apocalipse 12:17 e 14:12 é uma referência aos Dez Mandamentos. Na arca da aliança, que ficava no santuário israelita, foram colocadas as duas tábuas da lei de Deus (Êxodo 25:16, 21; Deuteronômio 10:1-5).

6. A validade do sábado para cristãos na nova aliança. Em conexão com o tema anterior, o evangelho eterno abrange a perpetuidade do quarto mandamento da lei de Deus, a guarda do santo sábado do Senhor, o sétimo dia da semana (Êxodo 20:11). Essa ideia é sugerida em Apocalipse 14:7 no chamado para adorar “aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas”. Essa é uma clara alusão a Êxodo 20:10-11: “Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho…, porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há…”. Também há uma alusão clara a Êxodo 20:11 em Apocalipse 10:6: “E jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos, o mesmo que criou o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles existe”. Apocalipse 10 a 14 sugerem que o sábado será um ponto de controvérsia na crise final. A primeira mensagem angélica e seu chamado para adorar o Criador (Apocalipse 14:6-7) é o antídoto contra a idolatria denunciada na segunda e terceira mensagens angélicas (Apocalipse 14:8-11). A advertência contra a adoração à besta e à sua imagem em Apocalipse 14:9 tem sua base no primeiro e segundo mandamentos da lei de Deus em Êxodo 20:3-4, que proíbem, respectivamente, adoração a outros deuses e imagens de escultura. Essa mensagem é proclamada pelo remanescente de Apocalipse 12:17.

7. A segunda vinda de Jesus. Após descrever as três mensagens angélicas (Apocalipse 14:6-13), João nos oferece um quadro da segunda vinda de Jesus (Apocalipse 14:14-20). Isto sugere que a pregação das três mensagens angélicas amadurece a Terra para a colheita final. Em outras palavras, a proclamação da última mensagem de advertência ao mundo tem como propósito preparar um povo para encontrar o Senhor em Sua segunda vinda. A segunda vinda de Jesus é um tema tão importante em Apocalipse que ele é mencionado várias vezes no livro (por exemplo, em Apocalipse 1:7; 6:15-17; 14:14-20; 19:11-21).

Em resumo, a proclamação do evangelho eterno inclui a mensagem do sacrifício expiatório de Jesus, as profecias de Daniel, as profecias de Apocalipse, o juízo celestial, a lei de Deus, o sábado e a segunda vinda de Jesus. Obviamente, vários outros temas se interrelacionam com essas mensagens. Porém, esses sete elementos se apresentam como eixos temáticos centrais em torno dos quais outros temas orbitam. Deus chamou um povo para anunciar essas verdades ao mundo, no poder do Espírito Santo (Apocalipse 18:1)! Que nossa determinação seja como a do hino: “Vamos dar a mensagem ao mundo, / proclamar a história da cruz; / história de amor e graça / história de paz e luz / Pois Jesus, nosso Rei, em breve / Voltará Rei dos reis, Senhor. / Virá Seu reino de luz fundar, / um reino de paz e amor!” (Novo Hinário Adventista, número 224).


Adenilton Aguiar é doutor em Novo Testamento pela Universidade Andrews, nos Estados Unidos, com especialização em Apocalipse. Escreveu sua tese doutoral sob a orientação de Ranko Stefanovic, autor do livro Revelação de Jesus Cristo: comentário sobre o livro do Apocalipse, lançado pela Casa Publicadora Brasileira. É professor de Apocalipse no Salt/Uniaene, em Cachoeira, na Bahia.

Referências:

[i] O conteúdo deste artigo é um breve resumo de algumas seções de minha tese doutoral. Ver Adenilton Tavares de Aguiar, “You Must Prophesy Again: The Mission of God’s People in Revelation 10-14.” PhD Diss., Andrews University, 2022. Link: https://digitalcommons.andrews.edu/dissertations/1787.

[ii] Kenneth A. Strand, “An Overlooked Old Testament Background to Revelation 11:1,” AUSS 22, no. 3 (1984): 317–25.

[iii] Isso é amplamente reconhecido por diversos intérpretes de Apocalipse. Infelizmente, a maior parte da literatura a esse respeito está em inglês. Alguns exemplos são: Thomas R. Shreiner, “Revelation,” em Hebrews-Revelation, ESV Expository Commentary, Vol. 12. Editado por  Ian M. Duguid, James M. Hamilton Jr., Jay Sklar. Wheaton, IL: Crossway, 2018, p. 648; Craig R. Koester, Revelation: A New Translation with Introduction and Commentary, Anchor Yale Bible. New Haven; London: Yale University Press, 2014, 494; John Christopher Thomas and Frank D. Macchia, Revelation, The Two Horizons New Testament Commentary. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 2016, 200.

[iv] Richard Bauckham, The Climax of Prophecy: Studies on the Book of Revelation. London; New York: T&T Clark: A Continuum Imprint, 1993, 271.

 

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