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Cristo não era pecador

Não teria sentido acreditar que o salvador que nos purifica do pecado tivesse uma natureza contaminada pelo mal

A cada fim de ano, as luzes do Natal se acendem e milhões de cristãos nominais se lembram de Jesus. Porém, mesmo os que não dependem dos atrativos dessa celebração costumam pensar no Salvador com mais frequência. Por isso, mais uma vez, Ele é o tema de capa. O enfoque não é o brilho nem o consumismo da estação, e sim o mistério da natureza humana de Cristo, assunto recorrente no meio adventista.

Alguns teólogos defendem que Jesus veio com nossa configuração posterior ao pecado. Ele se identificou com o pecador em absolutamente todos os aspectos e é primariamente nosso Modelo. Outros advogam que Cristo veio com a natureza moral/espiritual de Adão antes da queda, embora fosse 100% humano e tivesse a possibilidade de pecar. Ele possuía diferenças em relação aos outros seres humanos e é primariamente nosso Substituto. Quem está certo?

Sem dúvida, a segunda interpretação, que representa o pensamento adventista principal hoje, tem mais coerência. Veja sete razões para isso:

1. Analogia com o primeiro homem. Cristo é chamado de o segundo/novo Adão ou segundo homem (Rm 5:14-21; 1Co 15:45-49). Esses dois Adões são personalidades corporativas. Mas, em certo sentido, o primeiro Adão perdeu essa representatividade ao pecar. Portanto, a analogia tem mais sentido com o Adão de antes da queda, o qual ainda não possuía o “vírus” do pecado corrompendo seu sistema.

2. Singularidade de Cristo. Ele é único em sua categoria. A Bíblia o classifica como “ente santo” (Lc 1:35) e “Filho unigênito” (Jo 3:16), título aplicado apenas ao nosso incomparável Salvador.

3. Essência do pecado. Nas Escrituras, o pecado não é apenas um conjunto de atos maus que leva a uma condição de pecaminosidade, mas um estado pecaminoso que leva a atos maus. Ele procede do coração (Mt 15:19), tingindo todo o nosso ser. Se Cristo tivesse pecado em qualquer dessas dimensões, teria sido pecador.

4. Exigência de um sacrifício perfeito. Isso é tipificado pela oferta “sem defeito” (Êx 12:5; 1Pe 1:19) e é uma necessidade lógica. Para salvar, Jesus precisava ser sem pecado, absolutamente puro. Caso contrário, Ele teria que morrer primeiro por si mesmo. O pecado que o levou à cruz era nosso (Is 53:6; 2Co 5:21), não dele.

5. Separação dos pecadores. Jesus veio “em semelhança de carne pecaminosa” (Rm 8:3), porém não era igual aos pecadores. Participou de “carne e sangue” (Hb 2:14), mas não do pecado. Identificou-se conosco em nossas tentações (4:15); contudo, é “santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores” (7:26).

6. Condição eterna. Jesus continuará sendo Deus-Homem para sempre. Como na eternidade não haverá vestígio do pecado, a não ser as marcas nas mãos de Cristo, se Ele tivesse uma natureza pecaminosa, precisaria ter sofrido uma transformação moral na ressurreição, ou terá que passar pelo mesmo processo de glorificação dos redimidos por ocasião da parousia! Não parece absurda a ideia da perpetuação de sinais morais do pecado no próprio destruidor do pecado? Tal latência do mal seria uma bomba armada no interior da Divindade!

7. Declaração inspirada. Na famosa carta escrita em 1895 ao pastor William Lemuel Henry Baker (1858-1933), Ellen White condenou a ideia de identificar Cristo 100% com o pecador. Além disso, estudos mostram que ela usou expressões de autores como Henry Melvill, Octavius Winslow e John Wesley sobre a natureza humana de Cristo. Em síntese, eles acreditavam que, em seu estado pré-queda, Adão não tinha “debilidades inocentes” nem “inclinações más”, enquanto nós temos ambas e Jesus tinha as primeiras, mas não as últimas.

Gigantes da teologia como Karl Barth e Thomas Torrance sugeriram que Cristo precisava se identificar conosco em todos os aspectos. Isso é correto em termos, pois seria inviável um Salvador tão identificado com o pecador que não tivesse nada diferente dele. Afinal, antes de ser nosso Modelo, o Jesus da Bíblia é nosso Substituto. Neste Natal, louve a Deus por esse Presente!

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

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