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O evangelho de Apocalipse 14

As três mensagens angélicas descrevem a ação final de Deus para restaurar a verdadeira adoração, destruir o mal e preservar sua criação e suas criaturas. 

“Temei a Allah (Deus) e dai-Lhe glória. A hora do juízo se aproxima. Adorai o Criador de todas as coisas.” É o que Emir escutou em seu sonho relatado em 1º de dezembro de 2020, fenômeno que tem se tornado comum (ver Abed Al-Masih, “I Had a Dream. Can You Help Me?”, Adventist Frontiers, janeiro de 2021, p. 4, 5). Emir é um dos vários muçulmanos no Oriente Médio que, nos últimos meses, têm recebido visões de um homem de branco com marcas em suas mãos alertando-os a respeito da vinda de Jesus e do juízo. A mensagem que Emir escutou é a mesma que os adventistas do sétimo dia conhecem (ou deveriam conhecer) muito bem. O fato de mensageiros divinos serem enviados diretamente a pessoas de países em que o cristianismo é quase inexistente sugere que o evangelho eterno deve ser proclamado neste momento em alta voz e ao redor do mundo.

O recado do sonho de Emir é encontrado em toda a Bíblia, mas as palavras específicas vêm de Apocalipse 14:7. As três mensagens angélicas ganharam importância na história da interpretação do Apocalipse e no cristianismo em geral somente no século 19. Antes desse tempo, seu conteúdo quase não era mencionado diretamente por pregadores cristãos. Essas mensagens pressupõem a crença na iminente volta de Jesus, conforme lemos no Novo Testamento, e talvez por isso sua ênfase foi, com o passar do tempo, suplantada por uma compreensão terrena do reino de Deus.

Primasius, bispo de Hadrumetum no norte da África no 6º século, escreveu no seu comentário sobre o Apocalipse: “Embora do início da fé cristã temos aprendido que o reino dos Céus se aproxima, aqui [Ap 14:7], no entanto, se proclama que a hora do juízo virá muito em breve e virtualmente já chegou. […] A temporalidade do poder da besta deve ser considerada como insignificante” (“Commentary on the Apocalypse,” em Revelation, Ancient Christian Commentary on Scriptures 12, editado por William C. Weinrich [InterVarsity, 2005], p. 224-225).

Enquanto para Primasius a temporalidade da besta não importava, a identidade de Babilônia se tornou central em interpretações historicistas da mensagem dos três anjos do Apocalipse. Durante séculos, os cristãos interpretaram Babilônia como sendo os não cristãos, ou pagãos. Porém, na Reforma Protestante, a identificação de Babilônia e do anticristo com o cristianismo corrompido, com base em interpretações anteriores como as de Joaquim de Fiore e Gregório I, fez com que parte da mensagem dos três anjos de Apocalipse 14 ganhasse importância imediata.

Com o ressurgimento da crença do retorno de Jesus no grande reavivamento do século 19, as profecias do Apocalipse voltaram a ser centrais na identificação da comunidade do povo de Deus e do inimigo representado por Babilônia em determinado ponto da longa “cronosofia” profética bíblica, principalmente no tempo do fim. Cronosofia é a articulação do propósito da história guiado por agentes extra-humanos, como Deus. Trata-se de um conceito diferente de cronologia, que é a descrição linear de eventos sem explicação de causa ou efeito.

Guilherme Miller, por exemplo, fundamentado na sua interpretação de Daniel 8:14, postulou que a hora do juízo chegaria em 1843-1844, o que levou a uma precisão quanto à identidade de Babilônia. A princípio, a maioria dos mileritas viu no protestantismo norte-americano o cumprimento da Babilônia caída de Apocalipse 14:9. No entanto, após o desapontamento da expectativa do retorno de Jesus em outubro de 1844, os adventistas reinterpretaram o significado histórico de Babilônia e consequentemente a “hora do juízo”.

O pioneiro adventista John N. Andrews chegou à conclusão de que Babilônia incluía tanto a primeira como a segunda besta de Apocalipse 13, representando o cristianismo corrompido do catolicismo romano e do protestantismo (The Three Angels of Rev. XIV, 6-12 [James White, 1855], p. 57), interpretação que influenciou a compreensão vigente no adventismo.

Ao se identificarem como o povo de Deus, em contraste com Babilônia, os adventistas relacionaram a mensagem dos três anjos com as crenças distintivas do movimento, em comparação com outros cristãos. Delas, as mais relevantes são o sábado, em contraste com o domingo; a imortalidade condicional, em contraste com a imortalidade da alma; e o ministério celestial de Jesus e o significado profético dos rituais do santuário. Tais crenças serviram de guia teológico na interpretação de Apocalipse 14:6-12, assunto que foi amplamente estudado por P. Gerard Damsteegt (Foundations of the Seventh-day Adventist Message and Mission [Eerdmans, 1977]), e Alberto R. Timm (O Santuário e as Três Mensagens Angélicas [Unaspress, 1999]).

Como a articulação adventista da mensagem dos três anjos em seu contexto bíblico-teológico é bem documentada por esses dois autores e John T. Anderson (Three Angels, One Message [Review and Herald, 2012), entre outros, minha reflexão vai se restringir a pensar a importância e o papel desse último recado divino no próprio livro do Apocalipse. E vou fazer isso à luz do apocalipticismo judaico do mesmo período. Obviamente, a revelação divina não é limitada ao contexto da época, nem dependente dele, mas essa análise ajuda a esclarecer certos aspectos do último livro da Bíblia.

CONTEXTO LITERÁRIO

A mensagem dos três anjos de Apocalipse 14 segue uma longa descrição das atividades destrutivas do inimigo de Deus. O leitor do Apocalipse pode até se sentir desencorajado com a sua mensagem, visto que até o capítulo 14 o povo de Deus sofre os ataques do destruidor (Ap 9:11). Num contexto imediato, João descreveu o dragão irado, a besta violenta do mar e a besta da terra perseguindo o povo de Deus (Ap 12–13). Numa perspectiva mais ampla no livro, as atividades destrutivas das três bestas são as últimas de uma longa sequência de tentativas de destruir a criação divina. Não é sem razão que João escutou o clamor dos que sofrem questionando a Deus: “Até quando, ó Soberano Senhor?” (ver Ap 6:10).

João também escutou o anjo anunciando: “é chegada a hora” (Ap 14:7; cf. 10:6, 11). O clamor dos santos não foi em vão. A partir de Apocalipse 14, o apóstolo começou a descrever o esfacelamento das forças do mal. O Cordeiro entende o clamor dos santos, pois Ele também sofreu a violência das forças do mal ao ser assassinado (Ap 5:6; 6:12). Mas a mensagem do Apocalipse é de conforto aos seguidores de Cristo. Após a longa sequência de visões da criação sendo destruída, João visualizou o Cordeiro em pé no monte Sião, e com Ele os Seus seguidores (Ap 14:1-5). Apesar de todas as tentativas, a besta não venceu. Jesus conquista a morte (Ap 20:14; cf. 1Co 15:54-57).

A longa descrição das atividades do destruidor tem um objetivo: deixar bem claro quem é responsável pelo mal. Os anjos anunciam que chegou a hora do juízo, pois Babilônia caiu. A mensagem é presente, não futura. Pode até não parecer, mas na perspectiva apocalíptica o mal já foi vencido. Na cruz Jesus clamou: está consumado (Jo 19:30). Mas o mistério de Deus se resolve no longo prazo e em etapas.

A mensagem dos três anjos vem logo após a aparição de três bestas que atuam na Terra. Os três poderes do Céu anunciam o término das forças do mal, que em toda a narrativa apocalíptica somente destroem o que Deus fez. O resultado então é esperado. O destruidor será destruído. O primeiro anjo começa a proclamação do veredito celestial exclamando: “Adorem Aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7). Em Apocalipse 4:11, a adoração a Deus é justificada: “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas e por Tua vontade elas vieram a existir e foram criadas.”

O SÁBADO PROFÉTICO

Não é por acidente que o sábado como memorial da criação é o fundamento temporal na literatura apocalíptica judaica. Por exemplo, o livro apócrifo dos Jubileus, que fazia parte da biblioteca dos essênios da Comunidade de Qumran, usa períodos de sete e narra profeticamente a história do povo de Deus em ciclos de 49 anos. O Apocalipse também utiliza séries de sete. Esse padrão tem sua origem no Antigo Testamento. Em Levítico 23, os sete dias da criação se expandem para sete comemorações anuais. Em Levítico 25, os sete dias tornam-se símbolos para um ciclo da agricultura de sete anos, que por sua vez é expandido setes vezes, culminando no jubileu, o ano da libertação.

Nesses anos sabáticos, a natureza descansava, e a ordem divina era restabelecida. O plano de Deus para Israel era que cada família possuísse sua propriedade na terra que havia sido distribuída igualmente. No entanto, por causa da ganância, pessoas e terras eram adquiridas e deslocadas. O ano sabático reordenava a criação de Deus. As terras e as pessoas deslocadas de sua original posição eram retornadas aos seus devidos lugares. Na narrativa apocalíptica, o dragão é aquele que usurpa o território do Cordeiro (ver Mt 4; Jó 1; Ap 5:12 em contraste com 12:12), que redime a criação da opressão do destruidor.

Ao entrar na sinagoga em Nazaré, Jesus proclamou o profético ano de jubileu (Lc 4:18, 19). De acordo com os evangelhos, a obra do Ungido (Messias ou Cristo) do Senhor envolveu, em diversas maneiras, a cura física e mental de uma humanidade oprimida pelas forças das trevas. Jesus curou, perdoou, libertou da culpa e restabeleceu o que havia feito no princípio, quando tudo “era muito bom” (Gn 1:31).

A ordem da criação proclamada pelo primeiro anjo de Apocalipse 14 também ecoa a narrativa do dilúvio: “adorem Aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7, itálico acrescentado). O paralelismo com Êxodo 20:11 é claro: “o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há”. A sequência de céu, terra e mar é a mesma do quarto mandamento, mas o anjo de Apocalipse vai além e introduz as fontes de águas do abismo (Gn 1:2; 7:11). A ligação da criação com o dilúvio também era um tema comum no apocalipticismo judaico, conforme destacou Jeremy Lyon (Qumran Interpretation of the Genesis Flood [Pickwick, 2015]).

A DETURPAÇÃO DA CRIAÇÃO

Foto: Adobe Stock

Semelhantemente à comparação de Jesus entre o juízo final e o tempo de Noé (Mt 24:38), o segundo anjo, ao proclamar a queda de Babilônia, denuncia os dois grandes problemas na criação deturpada: comida e sexo: “Caiu! Caiu a grande Babilônia que fez com que todas as nações bebessem o vinho do furor da sua prostituição” (Ap 14:8, itálico acrescentado; ver Ap 17:1-5). Em Gênesis 1–3, Deus dá duas ordens: uma relacionada à dieta (Gn 1:29, 2:16, 17) e a outra à sexualidade (Gn 1:28, 2:24), duas fontes de vida. O destruidor fez Eva acreditar que a criação pode se tornar independente do Criador. Depois da transgressão alimentar, o que aparece na narrativa é a nudez, termo em hebraico sinônimo com intimidade sexual, conforme observa Jacob Milgrom (Leviticus 17–22 [Doubleday, 2000], p. 1535). A dependência dos prazeres da carne fora dos parâmetros da criação acaba destruindo a ordem divina.

Em uma comum interpretação judaica do dilúvio e as origens do mal, a corrupção da criação é compreendida como fruto da relação sexual entre os filhos de Deus (os anjos) e as filhas do homem (Jubileus 5:1; ver 1 Enoque 6–9). Numa amálgama textual entre Gênesis 3 e 6, a interpretação do livro dos Jubileus compara a atração de Eva pelo fruto que daria conhecimento com a interação espúria entre os filhos de Deus na Terra e os filhos de Deus no Céu. Visto que no hebraico a palavra para relação sexual (ydh) também significa “conhecer”, os intérpretes modernos desse livro sugerem que esse texto possivelmente produzido no período grego antes de Jesus denunciava a relação iníqua dos sacerdotes de Jerusalém com as autoridades político-religiosas helenísticas, segundo explica George W. E. Nickelsburg (Jewish Literature between the Bible and the Mishnah, 2ed. [Fortress, 2005], p. 49-51, 72).

No Apocalipse, os anjos caídos “coabitam” com a igreja, a esposa do Cordeiro (Ap 2:14, 20, 21; 12:13, 17; 17:1-6; ver Ez 23), e o resultado dessa união religiosa promíscua são as bestas deformadas. A criação rebelde amalgamada produz cenas dignas de filmes de terror. Uma das bestas com múltiplas cabeças e bocas cheias de sangue carrega a mulher que abandonou seu Criador para seguir um caminho de promiscuidade (Ap 13, 17). Repetindo a união de Eva com o maligno que gerou filhos violentos para morte (Gn 4:1-7; 1Jo 3:12), o casamento espúrio de Satanás com os reis da terra cria o mesmo resultado (Ap 17:1, 2, 8; 18:9, 17).

Na narrativa do Apocalipse, a criação divina, inicialmente perfeita, se deforma ao ponto de autodestruição. O terceiro anjo de Apocalipse 14 apenas anuncia o esperado: “Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na testa ou na mão, também esse beberá do vinho do furor de Deus, preparado, sem mistura, no cálice da Sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. A fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre. E os adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca do nome da besta não têm descanso algum, nem de dia nem de noite” (Ap 14:9-11, itálico acrescentado).

Note que os aliados do destruidor não descansam. Ao rejeitar o Criador do sábado, eles não desfrutam o descanso sabático e também ignoram o convite de Jesus para encontrar alívio Nele (Mt 11:28, 29). O primeiro dia completo da humanidade no Éden foi um dom gratuito de Deus que marcou uma completa dependência da criação em relação a Deus. Mas os adeptos do estilo de vida pecaminoso de Babilônia não aproveitam esse dom.

A mensagem dos três anjos é uma: quem não for restaurado, recriado, será destruído. O segundo anjo esclarece o diagnóstico da condição humana. O terceiro anjo profere a consequência, caso nada seja feito. E o primeiro anjo oferece a solução. Observe que Deus começa com a oferta da vida eterna. Esse é Seu maior interesse (Jo 3:16-18).

Quem não escolher a vida inevitavelmente se apegará à morte. O dualismo do apocalipticismo judaico é bem claro. A batalha para dominar a criação é entre as forças da luz e das trevas (Jo 3:18, 19), entre o bem e o mal. No Apocalipse, a guerra é entre o Cordeiro e o dragão. Não há alternativa. O Apocalipse de João deixa nítido que o conflito é entre o destruidor da criação e o que gera vida.

O APELO ECOLÓGICO E TEOLÓGICO DO CRIADOR

O Apocalipse, mais que qualquer livro da Bíblia, explicita a real condição do planeta Terra: “Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vocês, cheio de fúria, sabendo que pouco tempo lhe resta” (Ap 12:12). Ou seja, ainda não chegou o fim. A mensagem dos três anjos deve ser proclamada, alertando àqueles que destroem a criação que um dia, se não escolherem o Criador e a vida, também serão destruídos juntamente com o destruidor (Ap 20:10, 15).

Como o livro descreve, das intrigas nas sete igrejas aos ataques das bestas, as obras do inimigo só geram morte. O Céu, no entanto, regozija-se, pois o domínio de Satanás é temporário (Ap 11:17, 18).

O problema retratado nas três mensagens angélicas não é apenas a destruição do planeta a partir de uma perspectiva ecológica, o que é uma preocupação contemporânea; é principalmente o abandono do Criador e do Seu memorial da criação, o que leva a uma inversão no ato de cultuar. O objetivo do dragão e das bestas é obter a adoração que pertence somente a Deus. Mas isso resultará em destruição. Na verdade, o juízo já começou, e a humanidade deve ser alertada sobre ele. Portanto, além de aceitar o convite divino, é preciso proclamar a mensagem final de Deus ao mundo.

RODRIGO GALIZA, graduado em Jornalismo e Teologia, é mestre em Teologia e doutorando em História da Igreja pela Universidade Andrews (EUA)

(Matéria de capa da edição de março de 2021 da Revista Adventista)

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