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À sombra do decreto

Os tempos mudaram, mas Apocalipse 13 não. Entenda o cenário da crise final e realidades atuais que apontam para ela.

A fé adventista nasceu no berço da profecia. Nela encontra sua identidade e missão. Contudo, alguns fundamentos da interpretação apocalíptica estão sendo desconstruídos com argumentações sedutoras e sofisticadas. Há “uma onda recente de escatologia antiadventista. […] Roma não é mais um ator importante; a perseguição dominical nunca surgirá; nosso cenário do tempo do fim vem de Ellen White, não da Bíblia”, alertou Clifford Goldstein recentemente em um artigo publicado no site da Adventist Review e reproduzido no Portal Adventista.

Um dos pontos questionados na atualidade é o decreto dominical e a marca da besta, que inclusive recebeu atenção do Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral. Devido à limitação de espaço, tocaremos apenas nos elementos essenciais, embora haja muito de que tratar. A exemplo dos bereanos (At 17:11), vamos revisitar aqui os fundamentos bíblicos, nossa história, o papel do dom profético nesse processo e alguns desenvolvimentos recentes.

AS DUAS BESTAS

Em Apocalipse 13, duas bestas emergem para perseguir o remanescente de Deus nos momentos finais da história. A primeira é representada por um monstro, uma corporificação da anormalidade. Composta por partes de animais diferentes, seu ser viola as categorias da criação, dos animais criados “segundo a sua espécie”, além da básica distinção entre animais marinhos e terrestres (Gn 1:21, 24; ver Diogo Cavalcanti, “O Monstro Leonino que Surge do Mar”, dissertação de mestrado, 2019, p. 102-128). Os contornos transgressores da primeira besta denotam a violação das fronteiras da criação (Lv 19:19) e sua essência ímpia. Formada por partes de animais impuros (Lv 11), representa o cúmulo da impureza. Quanto mais cabeças, dentes e chifres, maior é sua força e ímpeto para devorar. A segunda besta não é monstruosa, mas também não é natural, pois é semelhante a um cordeiro e fala como o ­dragão, Satanás (Ap 12:9). Movidas pela ira do dragão, ambas querem devorar física ou espiritualmente “os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17).

Considere as características da primeira besta (Ap 13:1-10): (1) ela é composta por partes dos quatro animais de Daniel 7; (2) persegue os santos por 42 meses (que correspondem a 1.260 anos; Ap 12:6; Dn 7:25; ver Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 7, p. 895), ou seja, durante o período da Inquisição; (3) uma de suas cabeças foi ferida de morte, quando o papado perdeu gradualmente sua força até a prisão de Pio VI pelo general francês Louis-Alexandre Berthier em 1798; e (4) ela ressurgiu e maravilhou o mundo (a restauração do Vaticano e o estrelato global do papa), que chegará ao ponto de adorá-la. Este poder milenar, religioso, perseguidor e que ressurge no fim só pode ser o da igreja de Roma e o papado, como Lutero já cria no século 16 (Dennis Pettibone, “Martin Luther and the AntiChrist”, Perspective Digest, v. 13, no 2, 2008, p. 6, 12).

A segunda besta (Ap 13:11-18) sobe da terra, e não das águas, que representam povos (Ap 17:15). Não surgiu de um império que conquistou outro antigo domínio imperial. Ela “emerge” na América, que era muito mais ampla e menos povoada (Norman R. Gulley, Systematic Theology [Andrews University Press, 2016], v. 4, p. 524).

Essa besta tem aparência de cordeiro (é religiosa) e dois chifres ou poderes predominantes. Ela ganha um domínio mundial no tempo em que a ferida da primeira besta é curada (Ap 13:12). Essa mescla de poderio global e apelo religioso não pode descrever outra nação do mundo senão os Estados Unidos da América e, por extensão, o protestantismo americano. Trata-se de um país marcado por duas características (republicanismo e protestantismo) e por dois partidos majoritários (Democrata e Republicano). É a terra da liberdade religiosa e da democracia (aparência de cordeiro), mas ainda é uma besta (therion) assim como a primeira (Gulley, p. 525) e tem voz de dragão, uma intolerância latente, que já deu sinais do que realizará no futuro.

A IMAGEM E A MARCA

A obra-prima de engano e opressão no tempo do fim, arquitetada pelo dragão e operacionalizada pelas duas bestas, tem o objetivo de cativar a adoração universal. A estratégia final é obrigar o mundo a fazer algo para a primeira besta: formar uma imagem dedicada a ela e então adorar essa imagem, e, por tabela, adorar a besta e o próprio dragão.

A segunda besta, chamada de “falso profeta” no restante do livro (16:13; 19:20; 20:10), atua para servir à primeira. Por meio de sinais miraculosos (Ap 13:12), faz com que os habitantes da Terra a adorem, dando-lhes o sinal de Elias no monte ­Carmelo: o fogo descendo do céu, pois “o deus que responder com fogo esse é que é Deus” (1Rs 18:24; Ap 13:13).

Ela age para seduzir o mundo com seus sinais milagrosos, dando vida à imagem, fazendo-a falar e permitindo-lhe matar “todos os que não adorassem a imagem da besta” (Ap 13:15). Em paralelo com Daniel 3, a imagem da besta configura um instrumento legal pelo qual o decreto será imposto, ou seja, uma lei.

Sinais realizados por cristãos convencem o mundo a aprovar uma lei de intolerância. Há décadas tem sido marcante a experiência pentecostal e carismática envolvendo curas e sinais tidos como selos de aprovação divina, mas também precisamos considerar a ação espiritualista e mística de outros grupos. No passado, por meio de milagres e artes místicas, os magos e os falsos profetas contrariaram a voz profética genuína (Êx 7:11, 22; 8:7). O mesmo ocorrerá no fim, com os “espíritos de demônios, operadores de sinais” (Ap 16:13, 14; O Grande Conflito, p. 588, 589).

Então surge uma classificação diabólica: a marca da besta (Ap 13:16, 17). Ela dividirá a humanidade entre fiéis e infiéis ao sistema. Promoverá um embargo cruel, proibindo os dissidentes de “comprar e vender” (Ap 13:16, 17), o que deve ser entendido literalmente, assim como o “fizesse morrer” do verso 15.

A marca (charagma, do verbo grego charasso) tem que ver com um tipo de gravação que deixa uma marca indelével, à semelhança da que era usada por reis em moedas, escravos e animais marcados com ferro (Dicionário Bíblico Adventista [CPB, 2016], p. 859). Denota dominação e posse. No entanto, para entender o que é a marca da besta, é preciso descobrir o que é o selo de Deus.

O selo de Deus (sphragida Theou, Ap 7:2, 3), provavelmente do verbo phrasso, “parar”, “cercar”, “obstruir”, é a antítese da marca da besta. Refere-se às antigas formas de autenticação dos reis, com seus anéis e carimbos aplicados em gravações em cera, certificando documentos e cartas. Indica algo reservado, particular ou autorizado. Em Ezequiel, o selamento protege alguns judeus contra a matança causada pelos invasores (Ez 9:1-11), assim como o sangue nos umbrais das portas livrou os israelitas do anjo destruidor (Êx 12:21-23).

O selo de Deus é um elemento distintivo de Seu povo, que guarda Seus mandamentos e tem a fé de Jesus (Ap 14:12). Dentre os mandamentos, o quarto é o único que revela Deus como Criador. A linguagem desse mandamento está presente na primeira mensagem angélica (Ap 14:6, 7), a qual é pregada pelo povo que é selado (Ap 14:1; 7:1-8). Ou seja, esse povo tem como elemento distintivo a guarda dos mandamentos, com ênfase especial no quarto, que ordena a observância do sábado. É um povo duplamente selado: com o evangelho, para a salvação (2Co 1:22; Ef 1:13; 4:30; 2Tm 2:19), e com a proteção, para enfrentar a crise final (Jirí Moskala, “Duplo selamento”, Ministério, maio-junho de 2018, p. 22-24). O sábado tem sido um sinal entre Deus e Seu povo ao longo das eras (Ez 20:12, 20). Portanto, se o selo de Deus se torna visível pela guarda dos mandamentos, em especial o sábado, a marca da besta se torna visível pelo “antissábado”, o domingo, a marca da autoridade papal.

O passar dos dias não pode apagar a visão. Os olhos precisam voltar a brilhar com a esperança da profecia

Na longa tradição protestante americana, o domingo é chamado até hoje de Sabbath (sábado) e é guardado pelos devotos a partir do pôr do sol. A mudança do sábado para o domingo foi um ato do Império Romano e de Roma papal (Dn 7:25). E a aceitação do domingo por parte de outras igrejas é um sinal de subserviência à igreja de Roma (Marvin Moore, Apocalipse 13 [CPB, 2013], p. 198, 199). O próprio mundo secular já assimilou o domingo como um dia de descanso, tanto que a Organização Internacional de Normalização, conhecida como ISO e presente em 162 países, considera desde 1975 o domingo como o sétimo dia da semana, e dessa forma ele aparece em calendários.

O domingo já é uma realidade quase universal; porém, para se tornar a marca da besta, ele deve ser “anabolizado”, potencializado por leis que ainda não foram aprovadas. Será uma “grande e complexa obra de contrafação”, conforme ressalta Vanderlei ­Dorneles (O Último Império [CPB, 2012], p. 47). Satanás falsificará até a segunda vinda de Cristo como o ápice de sua obra de contrafação (O Grande Conflito, p. 624).

O selo de Deus será posto sobre a testa, indicando a aceitação consciente. Já a marca da besta será posta sobre a testa ou sobre a mão, simbolizando adesão consciente ou apenas conveniente. Quem não receber a marca da besta será ameaçado pelos poderes da Terra. Aquele que receber a marca da besta, conforme indica a terceira mensagem angélica, sofrerá a ira de Deus (as pragas) e será lançado no lago de fogo (Ap 13:9-11; 20:4, 5, 9, 10, 14, 15). Todos tomarão sua decisão, e isso significará salvação ou perdição eterna.

CONFIRMAÇÃO PROFÉTICA

De que maneira o ministério profético de Ellen White contribuiu para esse entendimento? Embora ela tenha escrito a pessoas e sobre eventos imediatos, seu principal trabalho foi o de confirmação de posicionamentos teológicos. Isso ocorreu em relação a vários temas, incluindo a marca da besta. Não foi uma inovação dela e, em alguns casos, nem mesmo dos pioneiros.

Foto: Adobe Stock

Em 1766, o reverendo Ebenezer Frothingham, um ministro congregacionalista de Connecticut, já identificava a “América” como a besta semelhante ao cordeiro de Apocalipse 13 (“The Articles of the Separate Churches”, republicado em The Great Awakening [Bobbs-Merrill Co., 1967], p. 452).

LeRoy Edwin Froom, em Movement of Destiny (Review and Herald, 1971, p. 109), destaca que o desenvolvimento doutrinário do adventismo se deu em um processo fundamentado no estudo da Bíblia e que Ellen White exerceu um papel confirmatório para sedimentar posições e resolver impasses, o que incluiu a marca da besta. José Bates, em 1847, foi o primeiro a identificá-la como a observância do domingo (The Seventh-day
­Sabbath, a Perpetual Sign
, p. 57). Nesse mesmo ano, Ellen White escreveu a Bates endossando sua interpretação (Enciclopé­dia Ellen G. White [CPB, 2018], p. 1061).

Froom (p. 87) sublinha que, em janeiro de 1849, Bates já entendia que a observância do domingo seria imposta legalmente. Em seu panfleto “A Seal of the Living God”, ele afirmou: “Esse poder ímpio, do qual o povo de Deus tem sido chamado a sair [Ap 18:4], ainda irá, como agora parece, promulgar uma lei com o propósito expresso de fazer todos se curvarem e guardarem o sábado do papa (o domingo).”

Em 1850, José Bates, Tiago White, J. Lindsey e Hiram Edson “identificaram a marca da besta como a observância do primeiro dia da semana”, observa Alberto Timm. No mesmo ano, G. W. Holt e Hiram Edson entenderam que “adorar a besta e sua imagem” (Ap 14:9, 11) se referia à “guarda do primeiro dia da semana em vez do sétimo” (O Santuário e as Três Mensagens Angélicas [Unaspress, 2013], p. 90). Em maio de 1851, John N. Andrews identificou a segunda besta como os Estados Unidos, país por meio do qual Roma imporia a marca da besta (ver Herbert Douglass, Profecias Surpreendentes [CPB, 2012], p. 104, 105). Em Thoughts, Critical and Practical, on the Book of Revelation (Steam Press, 1865, p. 224), Uriah Smith desenvolveu a interpretação geral do tema.

REVISIONISMO

Um dos argumentos mais sutis do revisionismo aplicado ao papel e aos escritos de Ellen White é condicioná-los artificialmente a seu tempo. Sim, é fundamental compreender o texto em seu contexto, mas também é necessário dar voz a seu sentido. É preciso evitar a falácia do presentismo, ou seja, interpretar o passado à luz de eventos posteriores, como se podássemos os galhos secos do passado e deixássemos apenas os galhos verdes, os mais recentes (David ­Fischer, Historians’ Fallacies [Harper and Row, 1970], p. 135).

O Grande Conflito talvez seja a obra definidora do ministério de Ellen White. É o único livro para o qual ela mesma preparou um prefácio, no qual afirma que o conteúdo é o registro de “cenas” reveladas por Deus sobre o conflito entre o bem e o mal. Destaca-se a visão que ela teve em Lovett’s Grove, Ohio, em 14 de março de 1858, que rendeu o primeiro ancestral do livro, Spiritual Gifts, publicado em setembro do mesmo ano.

Em relação ao decreto dominical, podemos tirar algumas conclusões seguras. Para começar, seus principais elementos estavam presentes de forma embrionária desde a primeira visão. Em 1847, Ellen White identificou a ação do papado e a marca como contrafação ao selo de Deus (A Word to the Little Flock, p. 19). Quatro anos depois, ela se referiu a um decreto: “E aqueles que não receberem a marca da besta e sua imagem, quando o decreto for emitido, deverão decidir agora dizer não” (A Sketch of the Christian Experience and Views of Ellen G. White, 1851, p. 55).

Um dos argumentos mais sutis do revisionismo aplicado ao papel e aos escritos de Ellen White é condicioná-los artificialmente a seu tempo

Em segundo lugar, suas visões do grande conflito tiveram um efeito cumulativo. Acrescentaram e expandiram informações, porém sobre a mesma base. Os escritos dos anos 1880, quando ocorreu uma ameaça real de aprovação de uma lei dominical nacional, conferiram mais nitidez e clareza ao que antes já era definido. Em 1882, ela afirmou: “Trinta e seis anos atrás foi-me mostrado que o que agora se desenrola haveria de suceder, que seria imposta ao povo a observância de uma instituição do papado por meio de uma lei dominical” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 137). As declarações encontradas na versão de 1888 de O Grande Conflito, embora dialogassem com seus dias, não eram uma pura decorrência deles, mas uma ampliação das visões do passado, e assim permaneceram até a versão final, de 1911, supervisionada cuidadosamente pela autora (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 123, 124; Douglass, p. 151, 152).

Após a crise de 1888, Ellen White conservou sua posição sobre a marca da besta e o decreto dominical, que se manteve nos anos 1890 até o século 20. Ela não olhava para o passado, mas para o futuro. Em 1910, afirmou na revista Signs of the Times (22 de março): “Quando as igrejas protestantes se unirem com o poder secular, […] quando o Estado usar seu poder para promulgar os decretos e sustentar as instituições da igreja, então a América protestante terá formado uma imagem ao papado”.

SINAIS CONTEMPORÂNEOS

Como o país da liberdade poderia fazer algo assim, e o mundo seguir seu exemplo? Ellen White reconhece que as “predições” nesse sentido parecem alarmistas, sem fundamento e absurdas (O Grande Conflito, p. 605, 606). Aceitamos a profecia pela fé, porém também é necessário discernir acontecimentos sinalizadores do fim. Na parábola da figueira, Jesus ensinou que os figos históricos anunciam o verão escatológico (Mt 24:32, 33). Quanto ao tema deste artigo, destacamos os seguintes:

  • A cooperação dos Estados Unidos com o Vaticano. O primeiro encontro entre um presidente americano e o papa ocorreu em 1919. Quarenta anos depois, ocorreu o segundo. Porém, de 1963 até 2017, foram 28 encontros de 12 presidentes americanos com cinco papas. Esses encontros revelam o respeito mútuo entre as partes e as agendas globais enfrentadas em parceria. O discurso da paz, o exercício do soft power e o carismático apelo às massas lançado por João Paulo II derrubou o muro de Berlim e a Cortina de Ferro. O papa Francisco discursou no Congresso americano em 2015 e foi recebido pelo público efusivamente, como nenhum outro líder mundial. São duas lideranças globais que já cooperam há décadas.
  • A direita cristã americana. Segundo uma pesquisa do Instituto Barna realizada em 2015 com protestantes evangélicos, 75% dos respondentes discordaram de que “um conjunto de valores não devesse dominar o país”. Ou seja, a maioria deles concorda que um conjunto de valores cristãos deve governar o país, o que em tese significaria o fim da separação entre Igreja e Estado. A direita cristã é uma corrente político-religiosa sustentada por um complexo colossal de instituições, programas de TV e rádio, sites, livrarias e gravadoras, agências de publicidade e meios modernos de levantamento de fundos. Atuam em pelo menos três linhas: (1) em defesa de valores ligados à família; (2) pela aprovação de leis cristãs; e (3) para aumentar sua influência dentro do Partido Republicano, elegendo políticos, em especial presidentes. A invasão do Capitólio, ocorrida em 6 de janeiro de 2021, também tem sido associada à retórica da direita cristã.
  • A relevância do domingo para o Vaticano e o mundo ­secular. Encíclicas papais, como Dies Domini (Dia do Senhor, 1998) e Laudato Si’ (Louvado Sejas, 2015), vão na mesma direção que a da pregação dos protestantes evangélicos americanos, acrescentado o resgate da dignidade humana e o cuidado pelo meio ambiente. Entidades religiosas, sindicais e sociais têm feito um intenso lobby em favor da aprovação de um dia comum de descanso, especialmente na Europa. A urgência climática também tem levado a um clamor por menos consumo e emissão de carbono, o que pode ser conseguido por um dia de descanso. O diálogo em torno de valores comuns está ligado ao ecumenismo, um processo inaugurado pelo Concílio Vaticano II. Segundo o papa Francisco, o ecumenismo é “um caminho irreversível”, “uma exigência essencial de nossa fé” (Alessandro Di Bussolo, Vatican News, 19 de janeiro de 2019).
  • A ameaça de tirania e a regressão do Ocidente. Os Estados Unidos ainda não atingiram a condição de intolerância profetizada. Ainda promovem ideais de liberdade. Porém, isso pode mudar. O ataque a Pearl Harbor (1941) levou à suspensão automática dos direitos de 110 mil cidadãos de origem japonesa. Apenas seis semanas depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, com o Ato Patriótico, entrou em ação um estado de vigilância jamais visto. Novos genocídios não estão descartados, pois “as ansiedades de nossa era podem mais uma vez [como no Holocausto] levantar bodes expiatórios e inimigos imaginários”, observou Timothy Snyder (The New York Times, 12 de setembro de 2015).

As novas tecnologias possibilitaram a criação de mecanismos de controle sem precedentes, com o advento dos metadados e da inteligência artificial. Pensadores têm alertado para a crescente ameaça da “ditadura dos algoritmos”. Eles permitem que partidos políticos, governos e grandes empresas influenciem as massas sem que elas percebam. Em mãos erradas, as novas tecnologias podem levar ao controle quase absoluto dos cidadãos, o que já se observa na China. Os algoritmos permitem uma segregação precisa daqueles que não concordam ou agem conforme os valores e leis vigentes. Podem levar a uma discriminação individual, como já ocorre com nosso score bancário.

Foto: Adobe Stock

Está em atividade um quadro de vigilância total no ciberespaço, com destaque para as ações da agência americana NSA (e parceiras) e a formidável capacidade desse país de bloquear economicamente nações e indivíduos com seus embargos implacáveis. “Vivemos no momento processos perigosos de uma descivilização”, tempos de “­emoções regressivas de descivilização”, alertou Oliver Nachtwey (“Futuros Majoritários”, em A Grande Regressão [Estação Liberdade, 2019], p. 121, 122, 123). Na mesma obra, Ivan Krastev chama a atenção para “o retorno de velhas identidades étnicas, religiosas e tribais”, uma situação em que “a democracia se torna um regime que garante o poder das maiorias” (“Descivilização”, p. 217).

Tudo isso nos é familiar, mas não é um bom sinal. Apesar de a profecia e a realidade clamarem diante dos nossos olhos, ainda parece ­obscura para alguns. Vivemos como que no tempo de Ezequiel. Deus lhe perguntou: “Filho do homem, que provérbio é esse que vocês têm na terra de Israel: ‘Os dias passam, e as profecias fracassam’?” (Ez 12:22, 23). O passar dos dias não pode apagar a visão. Os olhos precisam voltar a brilhar com a esperança da profecia.

Apagar os marcos proféticos significa neutralizar nossa fé (George ­Knight, A Visão Apocalíptica e a Neutralização do Adventismo [CPB, 2010], p. 29). Somos chamados a confiar na palavra profética (2Cr 20:20) e a nos preparar para o cenário que ela anuncia, pois algum dia o bom Deus vai dizer: “Darei um basta nesse provérbio” (Ez 12:23).

DIOGO CAVALCANTI, pastor, jornalista e mestre em Estudos Judaicos pela USP, é coordenador editorial de livros na CPB

(Matéria de capa da Revista Adventista de Agosto de 2021)

Última atualização em 5 de agosto de 2021 por Márcio Tonetti.

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